CANCAROTE

O Cancarote é um lugar habitado pela simplicidade e pela despretensão. Há quem diga que, a depender do ângulo, é também um caminho para a roça ou um caminho de volta para casa, para a infância, para a origem. Há quem diga!

Wednesday, November 22, 2006

AO ENCONTRO DE ANDRÔMEDA


Como se não bastasse vivermos em um aquário sideral; sim, porque um planeta que tem 75% da sua massa composta por líquido nada mais é do que um aquário. É uma bola cheia de água que viaja espaço afora, sacolejando pelos efeitos dos repuxos do astro mor, girando em torno desse monstro incandescente, que cospe labaredas e ondas eletromagnéticas.

E ainda, como se não bastasse não saber ao certo de onde estamos vindo, qual o nosso destino, e, mais especificamente, o que iremos lá fazer, temos agora mais uma urgente preocupação a preencher a insônia cotidiana de todos nós terráqueos. É o mais recente alerta da comunidade astronômica mundial. Trata-se da inevitável e iminente colisão entre a galáxia que habitamos, a Via Láctea, e uma outra galáxia gigante chamada Andrômeda. Estamos nos aproximando de Andrômeda a uma velocidade de um milhão de km/h. Isto significa que não viajaremos mais que dois milhões e cem mil anos luz para nos esborracharmos sobre Andrômeda.

O baque vai ser grande. Preparem-se para catar os cacos. O melhor de tudo é que algumas galáxias têm densidade muito baixa, o que permite que, no momento do choque, uma galáxia passe por dentro da outra. Isso é mais espetacular ainda. Imagine-nos viajando a uma velocidade de um milhão de km/h, passando por dentro de uma outra galáxia e despencando, universo adentro, sem destino. O espetáculo está por vir. Aguardemos, pois!

Por enquanto, contentemo-nos com o marasmo de tsunames, efeito estufa, tornados e el ninho.
O aquecimento global de meros 0,2 graus Celsius por década é uma pechincha.
É tudo muito pouco para quem aguarda por Andrômeda.


Edme Oliveira Machado

Monday, November 20, 2006

A DANÇA DOS LAÇOS


Sempre brinco com um meu colega de trabalho, Abel Neto, alegando que ele é filho da própria tia. Na verdade, não há nada de estranho. Simplesmente, a mãe deste meu colega morreu do parto em que ele nasceu tendo o seu pai se casado com a cunhada, fato comum em muitas regiões deste imenso Brasil. Assim, Abel pode ser considerado filho da tia ou, se preferir, sobrinho da mãe.

A partir deste mês, passei a compartilhar de situação semelhante à de Abel, uma dessas confusões proporcionadas pelo emaranhado dos laços consangüíneos. Na segunda-feira, 21 de agosto, nasceu a pequena Luísa. Por ser neta do meu irmão e filha da minha sobrinha Rita, Luisa é minha sobrinha-neta. Ocorre que a minha cunhada Alice, que é minha prima, prima e esposa do meu irmão e avó de Luísa, é também sobrinha do meu avô, que, por conseguinte, é irmão do pai de Alice, minha cunhada. Esta circunstância faz do bisavô de Luísa, Inácio, meu tio-avô. Coincidentemente, tio-avô é a mesma relação que me une a Luísa, já que, sendo irmão do avô de Luísa, ganhei esta honrosa distinção. Em resumo, eu sou tio-avô de Luísa, que é bisneta do meu tio-avô.

Toda essa confusão surgiu com a simples e despretensiosa constatação do meu tio Inácio, o bisavô coruja que, ainda no hospital, nos brindou com a seguinte assertiva: “a minha bisneta é trineta do meu irmão!”.

Como se não bastasse toda esta ginástica genealógica, fiquei com a árdua incumbência de explicar ao meu filho Igor, de cinco anos, que é bisneto do trisavô de Luísa, qual o seu real parentesco com o pai de Luísa, Germano, o último a entrar nessa dança dos laços consanguíneos.

O remédio é apelar para Deus...ou para o Santo.

Desconfiado de que todo o meu esforço dialético tenha sido inútil, recorro à sabedoria de Santo Agostinho, em seu diálogo “De Magistro”, em busca de um exercício para “refrescar” o raciocínio. Diz Santo Agostinho:

“O nome é sinal audível dos sinais audíveis, enquanto as coisas audíveis são também sinais audíveis, mas não sinais de sinais audíveis, e sim de coisas em parte visíveis, como Rômulo, Roma, rio; em parte inteligíveis, como virtude.”

Agora sim. Tudo ficou mais fácil!
Louvado seja o Santo!!
Edme Oliveira Machado

Sunday, November 19, 2006

AS INDULGÊNCIAS ELEITORAIS



Se há algo de que a sociedade brasileira já abusou é este famigerado Horário Eleitoral Gratuito. O nível do debate e o grau de baixaria que invadem a casa do eleitor carregam argumentos tão rasteiros que reduzem a “canto de ninar” todo o palavreado chulo dos freqüentadores da Zona do Baixo Meretrício da Ladeira da Montanha. Sempre que começa esse infeliz HPEG, fico comparando o seu conteúdo com os comícios de um político dos arredores de Brasília, que atravessava todo o período de campanha eleitoral com um único discurso, resumido no seguinte: “Prezados eleitores, votem em Farias! O que outros não fizeram, Farias fará. Se nós ganhar, oh nós neles, mas também, se nós perder, oh eles em nós”. Resumindo, uma lástima.

São programas e mais programas, debates e mais debates, entrevistas e mais entrevistas, e não se ouve uma proposta que identifique os problemas que afligem a população, e as fórmulas que serão utilizadas, no exercício do mandato, para a solução. É como se os candidatos falassem não para os detentores do voto, que definem os destinos do país, mas sim para os torcedores de um jogo de futebol amistoso, cujas conseqüências, independente do resultado, não vão além do placar.

Dizem que a propaganda é a alma do negócio e que, por isso, a galinha faz aquele “alarido” no momento da postura, para valorizar o ovo. Na realidade não é bem assim. Todo produto que necessita de muita propaganda para vender, certamente tem qualidade, eficácia ou origem suspeitos. São assim os produtos milagrosos que curam todos os males, vendidos nas feiras. É assim, a maioria dos produtos de beleza, que nada embelezam.

O grande cisma da igreja Católica foi obra do protesto de alguns monges contra a venda de indulgências pela Igreja. Benefícios, milagres e até a salvação eram vendidos pela Santa Igreja. É claro que se tratava de propaganda enganosa já que quem vendia não dispunha do produto para entrega. Naquele tempo a missa era o “horário gratuito” para a expressão da avareza nas negociatas das indulgências assim como a TV, hoje, através do Horário Político, serve de palco para a venda da salvação.
E a moeda é o voto. Cuidado com o seu!


Edme Oliveira Machado

O LOUCO



É difícil encontrar alguém que não tivesse tido sonhos de infância atormentados pela presença dos mais diversos tipos de loucos, pessoas que perambulam pelas ruas, sem identidade, sem parentes e sem juízo. Na minha infância, conheci muitos que ainda hoje povoam as minhas lembranças. Preta Doida, Eduardo, João Tolo, Chico de Eloi, Tomásia, Chica Barrão e tantos outros cujas mentes afetadas por alguma forma de insanidade, “portadores de necessidades especiais”, pra ser mais chic, habitam mundos de sonhos e fantasias, imunes ao governo da razão.
Cícero era um desses espíritos andarilhos, dos quais os sanatórios vivem cheios. Alto, magro, aparentando uns 45 anos, de óculos escuros, anéis de lata em todos os dedos, bolsos entupidos de dinheiro em cédulas antigas, cuidadosamente embaladas em uma meia, depois envolvidas em um lenço e acomodadas finalmente em sacos plásticos que estufavam os bolsos protegidos por botões. Sua maior preocupação era o casamento, “imaginário”, com uma moça rica cujo pai, segundo ele, era coronel. Gostava de ser chamado de “Dias”, e ficava enfurecido quando os malandros da rua gritavam “chola” ou “pescoço de alicerce”. Nesses momentos Cícero demonstrava todo o seu desequilíbrio. Corria atrás das pessoas, gritava palavrões e jogava pedras.
Hoje, nos dias agitados em que vivemos é impossível identificar os loucos. A fronteira entre a razão e a demência é extremamente tênue e torna-se praticamente impossível estabelecer a distância que cada um de nós se encontra dessa fronteira. Para muitos, todas aquelas pessoas que não se encaixam em um determinado padrão social devem se hospedar no hospício. Mas o que fazer com os loucos de toga? E os de fardas e distintivos? E aqueles com imunidades? E os loucos com diplomas? E os políticos, os bandidos os padres? E no hospício, como identificá-los? São os que estão dentro ou os que estão fora? E os que gastam seus dias navegando na internet? E os que traficam dinheiro, e drogas, e armas, e influência, e fé? E os que sonham muito alto? E os que não sonham?
Cícero deu sorte. Viveu toda a sua vida, louco e livre. Não cruzou com um “Simão Bacamarte”. Mas eu sim.
Levem-me para a Casa Verde!



Edme Oliveira Machado