Durante a Copa do Mundo de Futebol na
Alemanha, em julho de 2006, os brasileiros tiveram que engolir “a seco”, as
declarações do jogador francês Thierry Henry, de que brasileiro joga bem por
que joga bola o dia inteiro, os europeus têm que estudar, e os pais não deixam
as crianças jogarem. Não bastasse ter feito o gol que eliminou o Brasil da
copa, o gringo nos aplica esse golpe discriminatório. Tudo soou como se fosse
uma pontinha de despeito de Thierry ao ter que admitir que, apesar de não terem
organização, os brasileiros continuam sendo os melhores jogadores de futebol do
mundo.
Passado o trauma da derrota na copa,
superadas as sequelas emocionais geradas no calor da disputa, refletindo com
mais isenção é possível extrair das afirmações de Thierry, constatações importantes
que transcendem o universo do futebol. No primeiro mundo a atividade
prioritária das crianças é o estudo. A partir daí é que lhes são apresentados
os esportes para, num terceiro momento, si definirem por uma carreira.
No Brasil, ainda hoje, os maiores nomes do
futebol nascem em famílias miseráveis, aprendem a jogar em campos de várzeas,
descalços, com bola de meia; a escola, na realidade, é apenas uma atividade
secundária. Ao contrário do que pensa Thierry, não é o futebol que confisca o
tempo de escola dos garotos, mas sim, o trabalho infantil que complementa a
renda das famílias pobres. Ao se firmarem como atletas essas crianças, viram
mestres em pensar e falar com os pés. Não é à toa, o festival de “besteiras” que
se ouve nas entrevistas de vestiário dos jogos de futebol, do tipo: “Nós já
sabia que era difícil, num ganhemo, impatemo, mais o importante é crassificar”.
Esta é uma das muitas contradições da
nossa “arte maior”; é colírio para os olhos e castigo para os ouvidos. A
afronta ao idioma não é monopólio dos futebolistas. Na hora de emitir uma
opinião, maratonistas, boxeadores, artistas de televisão, cantores de música
popular, “É pobrema”.
O Brasil é o paraíso da dualidade. A natureza
bipolar desta sociedade está infiltrada até os átomos. É o craque de bola sem
escola (com o vosso perdão pela rima, além de pobre, infeliz), é o advogado
mendigo, com escola e sem emprego, é a modelo anoréxica, com fama e sem comida,
são os pobres, desnutridos e gordos por má alimentação, enfim é um time de
ricos de um lado, um time de pobres do outro e a Sapucaí no meio misturando a
fantasia da nobreza com a miséria irremediável da favela. E olha a Mangueira aí
minha gente!
Que Mangueira? Sou Chicreteiro painho!
Thierry fez o gol francês que nos
tirou da copa. Ele sabe o que fala e sabe o que faz com uma bola. O que Thierry
talvez não saiba é que europeu aprende a jogar futebol na escola, mas
brasileiro, quando e se vai à escola é para aprender a ler. O futebol já vem nas
veias. O futebol aprendido na escola está relacionado à competição, com resultados.
O futebol que está no sangue, é arte e tem a ver com a expressão humana, com o
espetáculo, com o show. Para os brasileiros, o Gol não é o maior momento do
futebol.
O momento mágico do futebol é o
daquela jogada fantástica, é o passe de calcanhar, é o drible que não cabe no
espaço, a bicicleta, a folha seca, é a curva que desafia as leis da física. A
beleza do futebol está na plástica da grande jogada. Aquela inventada na hora.
Desde que o seu autor não tenha que
explicá-la.
Se tiver, xiiiiiiiiiiiiiiii.
Edme Oliveira Machado set/2006