CANCAROTE

O Cancarote é um lugar habitado pela simplicidade e pela despretensão. Há quem diga que, a depender do ângulo, é também um caminho para a roça ou um caminho de volta para casa, para a infância, para a origem. Há quem diga!

Wednesday, October 16, 2013

A BOLA E A ESCOLA

 
Durante a Copa do Mundo de Futebol na Alemanha, em julho de 2006, os brasileiros tiveram que engolir “a seco”, as declarações do jogador francês Thierry Henry, de que brasileiro joga bem por que joga bola o dia inteiro, os europeus têm que estudar, e os pais não deixam as crianças jogarem. Não bastasse ter feito o gol que eliminou o Brasil da copa, o gringo nos aplica esse golpe discriminatório. Tudo soou como se fosse uma pontinha de despeito de Thierry ao ter que admitir que, apesar de não terem organização, os brasileiros continuam sendo os melhores jogadores de futebol do mundo.
 Passado o trauma da derrota na copa, superadas as sequelas emocionais geradas no calor da disputa, refletindo com mais isenção é possível extrair das afirmações de Thierry, constatações importantes que transcendem o universo do futebol. No primeiro mundo a atividade prioritária das crianças é o estudo. A partir daí é que lhes são apresentados os esportes para, num terceiro momento, si definirem por uma carreira.
  No Brasil, ainda hoje, os maiores nomes do futebol nascem em famílias miseráveis, aprendem a jogar em campos de várzeas, descalços, com bola de meia; a escola, na realidade, é apenas uma atividade secundária. Ao contrário do que pensa Thierry, não é o futebol que confisca o tempo de escola dos garotos, mas sim, o trabalho infantil que complementa a renda das famílias pobres. Ao se firmarem como atletas essas crianças, viram mestres em pensar e falar com os pés. Não é à toa, o festival de “besteiras” que se ouve nas entrevistas de vestiário dos jogos de futebol, do tipo: “Nós já sabia que era difícil, num ganhemo, impatemo, mais o importante é crassificar”.
 Esta é uma das muitas contradições da nossa “arte maior”; é colírio para os olhos e castigo para os ouvidos. A afronta ao idioma não é monopólio dos futebolistas. Na hora de emitir uma opinião, maratonistas, boxeadores, artistas de televisão, cantores de música popular, “É pobrema”.
  O Brasil é o paraíso da dualidade. A natureza bipolar desta sociedade está infiltrada até os átomos. É o craque de bola sem escola (com o vosso perdão pela rima, além de pobre, infeliz), é o advogado mendigo, com escola e sem emprego, é a modelo anoréxica, com fama e sem comida, são os pobres, desnutridos e gordos por má alimentação, enfim é um time de ricos de um lado, um time de pobres do outro e a Sapucaí no meio misturando a fantasia da nobreza com a miséria irremediável da favela. E olha a Mangueira aí minha gente!
Que Mangueira? Sou Chicreteiro painho!
 Thierry fez o gol francês que nos tirou da copa. Ele sabe o que fala e sabe o que faz com uma bola. O que Thierry talvez não saiba é que europeu aprende a jogar futebol na escola, mas brasileiro, quando e se vai à escola é para aprender a ler. O futebol já vem nas veias. O futebol aprendido na escola está relacionado à competição, com resultados. O futebol que está no sangue, é arte e tem a ver com a expressão humana, com o espetáculo, com o show. Para os brasileiros, o Gol não é o maior momento do futebol.
O momento mágico do futebol é o daquela jogada fantástica, é o passe de calcanhar, é o drible que não cabe no espaço, a bicicleta, a folha seca, é a curva que desafia as leis da física. A beleza do futebol está na plástica da grande jogada. Aquela inventada na hora.
Desde que o seu autor não tenha que explicá-la.
Se tiver, xiiiiiiiiiiiiiiii.
 Edme Oliveira Machado set/2006